Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia e que também assina as ilustrações presentes neste volume , o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.

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Começar uma resenha sobre esse livro é realmente muito difícil. Falar sobre algo que você ama é muito mais difícil do que fala sobre algo que você não gosta. Mas vamos lá, desafio aceito.

Comecei a ler este livro sem muitas expectativas, isso porque não sou uma pessoa de poesias/poemas/leituras profundas. Na resenha anterior até falei um pouco da minha questão com futilidades, veja aqui. A questão é, esse livro veio no momento certo. Depois de passar por situações realmente difíceis na minha vida ele veio como um conforto, um ombro amigo que dividisse o peso de um fardo – vários fardos.

Rupi Kaur escreve sobre sobrevivência de um jeito que nunca li antes. O livro é dividido em 4 partes, cada um fala sobre um aspecto das vivências de Rupi. São elas: a dor, o amor, a ruptura e a cura. Cada qual possui poemas que tocam em temas tabus do universo feminino, desde assuntos mais pesados como abusos sexuais, até mesmo assuntos como menstruação. É fácil se identificar quando vivemos numa sociedade na qual estas temáticas ainda são motivo de preconceito.

Interessado por Rupi? Ela ficou conhecida através de seus poemas, que eram publicados inicialmente em redes sociais. Vendo que muitas pessoas se interessavam pelo seu trabalho ela decidiu publicar em 2014, de forma independente, seu primeiro livro, tema desta resenha maravilhosa. Outros Jeitos de Usar a Boca foi sucesso vendendo mais de 1 milhão de cópias e ficando no topo da lista de mais vendidos do New York Times por 40 semanas. E em fevereiro de 2017 a editora Planeta trouxe o livro para o Brasil.  

Um dos diferenciais do livro é reunir ilustrações feitas pela própria Rupi que acompanham seus poemas. Outros são mostrar a vida como ela é, feia muitas vezes, mas com toques de beleza até em suas partes mais obscuras. Isso é arte para mim, mostrar o lado ruim de uma forma bonita. Porque muitas vezes é só amassando uma flor que extraímos seu melhor odor.

Todas as 4 parte mexeram comigo, mas confesso que a primeira “tocou na ferida”. A dificuldade de relacionamento com a figura paterna sempre foi uma questão pra mim, e falar sobre isso me dói, não precisei falar abertamente com ninguém, Rupi falou comigo, e isso foi bom. Afinal, mesmo sem conhecê-la fiz uma nova amizade.

A segunda parte fala sobre amor em suas diversas formas e sentidos, ela, contudo, não se deixa ser obscena. Fala de tudo com palavras certas – se é que existem palavras certas para o amor.

A terceira me fez pensar sobre o término do meu último relacionamento, afinal, ela fala exatamente sobre isso, sobre ruptura. Mexeu comigo? Claro, mas foi necessário para enxergar alguma coisas que há muito tempo venho escondendo de mim mesma.

E por último: a cura. Algo que está em todos os pequenos/médios e grandes machucados. A cicatriz fica ali para lembrarmos do que houve e do que aprendemos, mas depois de um tempo para de doer e vida que segue.

Devorei o livro em uma sentada e cheguei a uma conclusão: tenho que relê-lo o quanto antes. Isso porque sinto que não consegui absorver toda a essência, todo o seu significado, dada sua profundidade e complexidade.

Outros Jeitos de Usar a Boca é um livro que toda mulher E homem deveriam ler. Ele, por abordar questões do universo feminino de forma a “destabulizar” as coisas – já dizia a deusa Jout Jout -, é dado como feminista. E nada mais certo. Vemos muitos livros de autoajuda dizendo como devemos ser felizes e focar nas coisas positivas. Mas as experiências negativas são as que nos dão mais sabedoria. Quer coisa melhor do que ser sábio?


Abaixo algumas citações desse livro que me conquistou. Mais que tudo, abriu meus olhos.

pai. você sempre liga sem ter nada especial a dizer. você / pergunta o que estou fazendo ou onde estou e se o silêncio / entre nós se estende por uma vida dou / um jeito de encontrar / perguntas que façam a conversa continuar. / o que eu queria / mesmo dizer é. / eu sei que o mundo te / despedaçou. foi com / tudo pra cima de vocês. não te culpo por / não saber / ser delicado comigo. às vezes fico acordada / pensando / em todos os machucado que você tem e / nunca vai / dizer. eu venho do mesmo sangue dolorido / do mesmo / osso tão sedento por atenção que desabo / em mim / mesma / eu sou sua filha. eu sei que a / conversa-fiada é o / único jeito que você conhece de dizer / que me ama. porque / é o único  jeito que eu conheço.

 

ele diz / desculpe por eu não ser uma pessoa fácil / eu olho pra ele surpresa / quem disse que eu queria fácil / gosto de difícil pra caralho

 

não quero ter você / para preencher minhas partes vazias / quero ser plena sozinha / quero ser tão completa / que poderia iluminar a cidade / e só aí / quero ter você / porque nós dois juntos / botamos fogo em tudo

 

o amor vai chegar / e quando o amor chegar / o amor vai te abraçar / o amor vai dizer o seu nome / e você vai derreter / só que às vezes / o amor vai te machucar mas / o amor nunca faz por mal / o amor não faz jogo / porque o amor sabe que a vida / já é difícil o bastante

 

eu não fui embora porque / eu deixei de te amar / eu fui embora porque quanto mais / eu ficava menos / eu me amava

 

eu sou um museu cheio de quadros / mas você estava de olhos fechados

 

você precisa começar um relacionamento / consigo mesma / antes de mais ninguém

 

a solidão é um sinal de que você está precisando desesperadamente de si mesma

 

você tem o hábito / de depender / dos outros para / compensar aquilo que / você acha que não tem / quem te fez / cair na história / de que outra pessoa / deveria te completar / se o máximo que alguém pode fazer é / complementar

 

perder você / foi o que levou / a mim mesma

 

como você ama a si mesma é / como você ensina a todo mundo a te amar

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